Drink to achieve your dream. But later u will pay!
até que ponto as lutas são essenciais para superar barreiras e poder ser reconhecido por seu valor? de que tipo de lutas falamos e quais são válidas na sociedade contemporânea?
Drink to achieve your dream. But later u will pay!
até que ponto as lutas são essenciais para superar barreiras e poder ser reconhecido por seu valor? de que tipo de lutas falamos e quais são válidas na sociedade contemporânea?
De que adianta?
De que adianta ser justo,
na injustiça dos outros?
D‘ que adianta ser injusto
na justiça dos outros?
INQUIETOS (Restless) de Gus Van Sant
EUA, 2011
Com Mia Wasikowska, Henry Hopper, Ryo Kase
O diretor alternativo Gus Van Sant apresenta poucos personagens em Inquietos: dois jovens, Enoch Brae (Henry Hopper) e Annabel Cotton (Mia Wasikowska), ele traumatizado pela morte de sua família e ela em estado de câncer terminal. A preocupação com o fim da vida é a rotina dos dois.
Por um lado, Enoch – fisicamente saudável – perdeu a fé na vida, nunca anda de carro (já que perdeu toda a sua família ali) e tem o costume de ser “penetra” em funerais, tornando-se uma figura reconhecida pelos organizadores e religiosos dos eventos; por outro lado, a solitária e bela Annabel é apaixonada pela vida e pelo mundo natural, se divertindo com livros de Charles Darwin e sem manifestações comuns de tristeza pela sua eminente morte. O que o motiva a ter essa fixação pela morte? O que a impulsiona a continuar a viver?
Quando os dois se conhecem, em um funeral, logo se apaixonam. E este amor é fortemente marcado pela presença da amizade, dois pontos que se complementam mas nem sempre estão presentes. Com sábia elegância e poética linguagem, Inquietos mostra um casal que se depara com um conflito contra o qual não podem lutar, o “morrer”. Diante disso, decidem experimentar o “viver”, ele promete, em três meses, garantir a ela todos os momentos que Annabel deve ter, sejam eles simples, românticos ou inusitados.
Ao longo do roteiro, conforme vão se conhecendo, eles se afastam mais ainda do contexto social e passam a frequentar o estado de natureza, como lagos, florestas e até mesmo cemitérios. Estimulados pela atração de Annabel pelo mundo natural, ambos acabam por concretizar seu amor em uma cabana de floresta, contrapondo-se à cena de um jogo de esportes, no qual ela conta à ele sua doença terminal.
Acredito que seja quase impossível assistir esse filme sem ser abraçado pela profunda beleza. Afinal, é um casal de deslocados (mesmo que não sejam a maioria, quantos não se sentem enquadrados dentro desse mundo?) com um ar de antiguidade presente nas suas roupas, músicas, livros. Vale a pena adicionar que a atriz Mia Wasikowska usa o mesmo corte de cabelo de Mia Farrow em O bebê de Rosemary, marcando ainda mais sua beleza. Sendo assim, é possível entender como uma fábula com ar de tragédia antiga, isto é, uma utopia – algo que não tem lugar, mas isso não quer dizer que seja impossível, já dizia um saudoso professor de Geografia que me ensinou o valor das lutas e dos ideais para ser reconhecido.
Em outras palavras, ainda que seja um filme com um tema tão carregado, a abordagem de Van Sant é leve e introspectiva, sem invadir o espectador, mas envolver o seu íntimo. Sendo assim, constitui-se na exposição de uma romântica amizade e de uma maneira de olhar para o dualismo vida e morte, aceitando assuntos tão doloridos.
A construção de uma política
ergue-se numa base crítica
e passa pela poesia
e também pela cortesia
Somente o espírito revolucionário
através do ideário diário
seja voluntário, seja involuntário
pode efetivamente ser um movimento contrário
A atual visão de mundo
pede transformação
através da beleza do submundo
e de sua contínua ação
Esboçar um novo destino, através da poesia,
é uma batalha política.
Afinal, o que é política, senão poesia?
MEDIANERAS: BUENOS AIRES NA ERA DO AMOR VIRTUAL (Medianeras) de Gustavo Taretto
Argentina/Espanha, 2011
Com Pilar López de Ayala, Javier Drolas
Medianeras é um filme feito pelos hermanos que mostra, sobretudo, a relação do indivíduo com a cidade que o cerca. No caso em questão, Buenos Aires é um lugar no qual milhões se cruzam todos os dias, mas ninguém realmente se encontra, pois a lógica que moldou o comportamento social e até mesmo a infraestrutura urbana nos diz para seguirmos adiante, rumo a um fim que não está definido. São verdades que vivencio também em São Paulo ou em qualquer outra cidade grande. O diretor busca integrar, poeticamente, a capital argentina ao enredo, modificando as paredes de concreto, os emaranhados de fios, a ocultação pelos edifícios em um significado que põe em xeque o desenho dos espaços urbanos contemporâneos.
A obra nos mostra a metrópole portenha vista pela ótica de dois jovens que sofrem de problemas decorrentes da impotência frente à grandeza da cidade, à velocidade da vida contemporânea e à perversidade de um mundo que já não mais atende aos humanos, mas à interesses materiais. Durante a exibição, nos questionamos sobre a nossa existência, marcada por forte presença da tecnologia. Sem dúvida, os computadores afetam a nossa sociabilidade, porém nem sempre negativamente, isso decorrre de serem portas para um mundo distante e desconhecido. Além disso, a tecnologia nos supre com distrações para quando a vida “ ao vivo” passa a ser vivida isoladamente.
Frente a esse contexto, aproveito para falar dos protagonistas, ambos vivem na mesma quadra da Avenida Santa Fé e estão sempre por perto, mas nunca juntos. São apresentados paralelamente e se encontram no final: Martín (Javier Drolas) e Mariana (Pilar López de Ayala). Ele, atento às transformações da cidade que habita e viciado nas maravilhas tecnológicas. Ela, crítica da arquitetura da capital e frustrada em sua vida sexual. São pessoas que buscam tapar seus buracos, existenciais e amorosos, através do consumo, do trabalho, dos passeios reflexivos pelas ruas… São alguns confortos que a cultura do século XXI nos apresenta, mas que não constituem uma base suficiente para uma vida suficientemente agradável.
Esses dois, que sofrem pesadamente pelo lado ruim que a modernidade carrega, são fragmentos de um cotidiano com o qual nos identificamos ao assistir o filme. Entre outros pontos, a paisagem de tais cidades é fortemente identificada por prédios que sufocam os pedestres e os moradores, transformando todo o ambiente em uma imensidão sem luz, sem natureza, sem vida social. Tal apresentação é a mesma que senti ao assistir a cidade presente em Alice.
Também vale a pena dizer que Martín vive com um cachorro em seu pequeno apartamento, constituindo a sua relação com o mundo exterior e é através de tal animal que ele sai para a rua, encontra a cuidadora de cachorras e faz sexo casual, mas nunca com relacionamentos permamentes. Foi um presente deixado por sua ex-namorada que abandonou Martín e a Argentina após a grave crise de 2001 motivada pelo programa econômico neoliberal (que pode ser narrada desde passeatas populares até a declaração de Estado de sítio pelo presidente) que mostra uma falha que marca até hoje o povo vizinho. Uma falha também vista no crescimento arquitetônico da cosmopolita Buenos Aires, que possui uma paisagem em constante mudança e uma realidade social tentando se adaptar à nova realidade.
Ao passo que Mariana vive fora de seu apartamento, decorando vitrines, ele trabalha como web designer, fechado em seu apartamento e cercado por objetos que “são os nossos brinquedos: consolos às pressões incessantes por conseguir o dinheiro para poder comprá-los, e que, em nossa busca deles nos infantilizam.” São as palavras de Deyan Sudjic no livro A linguagem das coisas. Portanto, os dois personagens são criadores que expressam a arte para os outros e não para si, tentando fugir de suas angústias, fobias e frustrações diante do cenário caótico e irregular.
Ademais, Medianeras merece destaque pela sua ótima trilha sonora que carrega tanto um ar de melancolia quanto de amor. Outro ponto importante é o modo como a câmera consegue captar as ideias presentes no filme, mesmo nos exíguos espaços das kitchentes de Mariana e Martí quanto nos amplos recortes exteriores de Buenos Aires. De certo modo, recorda-me da genialidade de Polanski em O bebê de Rosemary. Em outras palavras, creio que posso resumir o longa de Gustavo Taretto como uma discussão em torno da solidão e da procura do belo no caos, onde a era virtual predomina sem preencher vazios.