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PARA UM SOLDADO PERDIDO (Voor een verloren soldaat) de Roeland Kerbosh

Holanda, 1992

Com Maarten Smit, Andrew Kelley, Jeroen Krabbé

 

O filme dirigido pelo holandês Roeland Kerbosh mostra a Holanda de 1944, ocupada pelos nazistas, na qual uma mãe que vive em Amsterdam envia seu filho para o interior  para que viva com outra família. O pré-adolescente de 12 anos, Jeroen (Maarten Smit)(pronuncia-se “jerún”), logo começa a sentir os “humores da puberdade” e a saudade de sua família. Contudo, a Holanda é libertada do domínio alemão e uma tropa vinda do Canadá passa um tempo na cidade em que Jeroen vive. Aos poucos, o tenente Walt (Andrew Kelley) e o menino passam a se conhecer melhor até que a relação evoluiu para um caso de pedofilia.

Ao assistir Para um soldado perdido pode-se perceber que a amizade entre os dois constrói-se gradualmente, mesmo com as diferenças culturais e, sobretudo, linguísticas. Além da diferença de gerações que também distingue ambos. Todavia, o relacionamento entre o holandês e o canadense constrói-se muito rapidamente, passando a impressão de que o soldado adulto força, mas de maneira gentil, o seu desejo sexual com o inocente jovem.

Como sabem a Holanda tem um histórico de ser vanguardista e liberal, daí o fato de um filme, mais antigo do que eu, mostrar um adolescente que começa a viver suas experiências amorosas, e reunir a temática gay e pedofílica. O filme torna-se mais impactante ao utilizar a ótica de Jeroen para Walt, ao invés da visão clássica dos adultos observando avidamente as crianças. Sendo assim, a obra é romântica e dramática, apresentando as dúvidas e os ritos de passagens do jovem junto às dificuldades de ser homossexual na contemporaneidade, sem cair nos clichês, afetações, hipocrisia ou quaisquer outros problemas que aparecem em muitos filmes que lidam com a homossexualidade.

Mas, acima de tudo, o que mais me impressiona no filme é que todas as diferenças possíveis entre Walt e Jeroen não são percebidas instantaneamente por quem assiste, não há uma crítica, por parte do espectador, ao romance de ambos. De modo que a obra têm uma temática gay e pedofílica, mas não faz dela um cerne a ser explorado acima da simples história romântica entre um pré-adolescente holandês e um soldado canadense. Sendo assim, a reflexão sobre o assunto só ocorre ao término da exibição do filme de Kerbosh.

O vilarejo em que a história acontece apresenta um cenário campestre e bucólico, que lembra as paisagens que Van Gogh pintava. Na encantadora casa de campo em que Jeroen vivia, habitava um senhor muito religioso  que repreendia o relacionamento entre os dois homens, pois isto não era um costume da região. Sem dúvida sou contra a intervenção da Igreja ou qualquer outra instituição nas vidas pessoais, penso que cabe a cada um escolher o que quer fazer e a todos entender que não devemos nos portar como escravos de ideologias dominantes e preconceituosas que não respeitam a diversidade e a dinâmica das maiorias e minorias.

A mera sinopse de Para um soldado perdido permite que o público espectador tenha ciência do enredo do filme, porém, há dois momentos que são marcantes. O primeiro é a primeira noite em que Jeroen e Walt se conhecem e dançam ao final do baile uma bonita música e nesta cena pode-se notar muito claramente o tamanho físico dos dois que realça a diferença de idade entre ambos. O segundo momento digno de nota é quando a chuva destrói a foto com o retrato de Walt que Jeroen deixou guardada em suas calças. A tristeza do menino fica evidente em quem assiste, que torce para que o casal seja feliz.

Acredito que o gosto pelo filme ou por seu tema variará muito de pessoa para pessoa, mas deve-se concordar que é uma experiência cinematográfica bem produzida e que carrega uma sensibilidade ímpar ao tratar de uma tema tão delicado.

 

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