O PRIMO BASÍLIO de Daniel Filho
Brasil/Portugal, 1988
Com Giulia Gam, Marcos Paulo, Tony Ramos, Marília Pêra
Quando a minissérie de 16 capítulos estreou, eu nem havia nascido, mas, nesse ano minha professora de Literatura me emprestou os dvds, e devo dizer que foram 11 horas muito bem aproveitadas.
A obra, baseada no romance homônimo de Eça de Queirós, se passa na pitoresca Lisboa do século XIX, e mostra o romance extraconjugal entre Luísa (Giulia Gam), típica senhora da média burguesia portuguesa, e seu primo, Basílio (Marcos Paulo), rico exibicionista que conquista a ex-namorada depois de abandoná-la por anos. Tanto o livro quanto a minissérie trabalham com personagens-tipo, cada um simbolizada toda uma classe social, e uma crítica à sociedade.
Dentro dessa limitação da personalidade, imposta pelo Eça, os atores representam muito bem todo esse mundo feliz e perfeito, apoiado em bases falsas e podres. Traduzindo: casais ricos que ficam o dia inteiro traindo os cônjuges e explorando as criadas. No caso de O Primo Basílio, Juliana (Marília Pêra), a criada de dentro (nome da época para quem lava banheiro, arruma cama, põe a mesa, varre a casa, passa roupa, e mais outras tantas tarefas) descobre as cartas entre os amantes e passa a ameaçar a patroa, pedindo regalias e os serviços feitos por Luísa, enquanto ela passeia por Lisboa. Obviamente, nenhuma delas está certa, pois Luísa explora a criada Juliana, e acha que está certa apenas por pagar uma miséria todo mês. E a explorada acha sua vingança justificável em nome de seu sofrimento, e deseja assumir a mesma posição que a patroa, explorando outras pessoas.
O lado ruim da adaptação para a televisão, pelo menos na atualidade de 2009, são as técnicas de câmera com excessivos closes, uma trilha sonora boa, mas também excessiva e marcante demais. Nesses pontos, me parece mais uma novela mexicana. Porém, é algo bem compreensível, visto a diferença de 21 anos entre a produção e esta crítica.
Mas, o lado bom, é a fidelidade histórica da minissérie, que tenta reproduzir, no limite, o livro de 1878. Até mesmo as roupas das protagonistas marcam as desigualdades da época, e da atualidade. Enquanto Luísa usa (muitas) roupas claras e sofisticadas, com muitas camadas e detalhes, Juliana parece sempre vestir a mesma veste simples e cinza-escura. Talvez para combinar com os aposentos apertados no último andar, com paredes de cimento, ratos nos rodapés e percevejos nas camas.
As cenas inesquecíveis são: a morte de Juliana, vítima de seu coração fraco e inveja, o descobrimento da traição por Jorge (Tony Ramos) – marido de Luísa, e típico funcionário público bem-sucedido, e quando Luísa tem seu cabelo raspado, por conta de uma doença terminal. Outro momento que me marcou, não pela produção, mas pelo significado, foi quando Leopoldina (Beth Goulart), amiga e confidente de Luísa durante o adultério, é barrada na porta da casa da amiga, quando esta está doente. Mais uma vez, é marcado o desprezo da burguesa pelos que lhe são próximos, e querem ajudá-la. A mulher que trai o marido, explorada a empregada, rejeita a amiga, e é tão atual hoje em dia…
Para os que não tiveram oportunidade de assistir O Primo Basílio, sugiro que assistam, serão, com certeza, horas úteis e prazerosas.
2 Comentários
excelente crítica, André! Deu vontade de ver a minissérie e, com certeza, ler O primo Basílio!
bjs =*
André
Que maravilhoso o seu blog!!! Continue, sempre. Você é talentoso. Bjs.
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[...] que apesar de diferentes épocas e lugares, La nana pode ser perfeitamente relacionado com O primo Basílio, embora tenham abordagens diferentes. A obra portuguesa foca na exploradora relação da classe [...]